O Chinelo e o Inseticida: a tragédia argentina e o preço de renegar a própria história
O Chinelo e o Inseticida: a tragédia argentina e o preço de
renegar a própria história
Por que a classe trabalhadora, ao virar as costas para suas
tradições de luta, acaba elegendo quem a destrói?
No dia 11 de fevereiro de 2026, o Senado da Argentina
aprovou, sob forte repressão policial, a Reforma Trabalhista do governo Javier
Milei. Mais de trezentos manifestantes ficaram feridos. Setenta foram detidos.
Do lado de fora do Congresso, docentes, sindicalistas e movimentos sociais
gritavam contra o afrouxamento das contratações, a redução das indenizações, o
fracionamento das férias e a criminalização do direito de greve. Do lado de
dentro, 42 senadores diziam sim a um projeto que, segundo a Confederação Geral
do Trabalho (CGT), representa o maior retrocesso social desde a
redemocratização.
A cena é de uma violência imperdoável. Mas talvez a “imagem”
mais forte para compreendê-la não esteja nos números de feridos, nem nos
discursos parlamentares. Talvez esteja numa cozinha, numa noite qualquer,
quando uma barata, enlouquecida pelo inseticida que lhe queima as patas e lhe
sufoca as traqueias, avista um chinelo. Exausta, confusa, tomada por uma
espécie de fúria autodestrutiva, ela não foge: avança na direção do objeto que
sempre representou seu esmagamento. O inseticida a envenena; o chinelo a acolhe
no gesto final, lhe dando sombra e proteção aparentes. A barata com raiva do
veneno se apaixonou pelo chinelo.
A metáfora é grotesca? Sim. A classe trabalhadora argentina,
ao longo do século XX, construiu um dos movimentos sindicais mais combativos da
América Latina. Forjou no peronismo, contraditório, burguês em sua origem, mas
profundamente enraizado nas massas, um combo de direitos, dignidade e
pertencimento político. As conquistas trabalhistas argentinas não caíram do
céu: foram arrancadas em greves, ocupações de fábrica, resistência à ditadura.
Foram inscritas na carne social do país. E, no entanto, diante da crise
inflacionária, do empobrecimento acelerado e do descrédito das velhas
lideranças, parcelas significativas dessa mesma classe olharam para o chinelo,
um economista excêntrico que empunha uma motosserra como símbolo de campanha, e
decidiram que ele era a solução. A barata, intoxicada pelo fracasso do
peronismo em seus últimos governos, confundiu o algoz com o salvador.
O resultado está nas ruas de Buenos Aires. Está nos 300 mil
postos de trabalho formais já eliminados antes mesmo da reforma ser
integralmente aprovada. Está nos corpos feridos, nas férias que serão
fracionadas, nos contratos que poderão ser rompidos por um custo irrisório. A
tragédia argentina não é apenas econômica: é política, é histórica, é uma lição
sobre os custos de se renegar a própria luta de classes.
É aqui que precisamos falar do Efeito Orloff. Quem
viveu no Brasil dos anos 1990 lembra do comercial: um ator virava para a câmera
e dizia, com olhar fixo: "Eu sou você amanhã". A frase,
criada para vender vodka, tornou-se uma profecia involuntária da geopolítica
latino-americana. O que acontece na Argentina hoje não é um aviso para
o Brasil. É um espelho. O ajuste fiscal, a criminalização dos
movimentos sociais, a reforma trabalhista que fragmenta direitos, a
naturalização da violência policial contra manifestantes, tudo isso já foi
ensaiado em Brasília, em 2017, em 2019, em 2024. O que Buenos Aires vive agora,
Feira de Santana viveu ontem quando a Guarda Municipal agrediu manifestantes. E
o que Feira de Santana viveu ontem, Buenos Aires vive hoje. Não se trata de
profecia, mas de coordenação. O capital não tem pátria, mas tem
calendário. E o calendário indica que a mesma agenda que derrubou direitos na
Argentina já está protocolada nas comissões da Câmara dos Deputados brasileira,
aguardando apenas a conjuntura favorável. O Efeito Orloff não é coincidência:
é estratégia.
Marx e Engels, no Manifesto Comunista, escreveram
que os trabalhadores não têm pátria, mas isso não significa que sejam
indiferentes às formas concretas que suas organizações assumem. Quando um
movimento operário abandona suas tradições de luta sem assimilá-las
criticamente, sem superá-las por algo superior, ele não se torna livre:
torna-se órfão. E órfãos são presas fáceis para demagogos que prometem
extinguir a pobreza extinguindo os pobres, ou, no caso, extinguindo os direitos
que protegem os pobres de serem ainda mais pobres. Aqui, precisamos voltar a
postura dos sindicatos dos rodoviários e comerciários na votação da tarifa de
ônibus em Feira de Santana. Votaram contra a classe trabalhadora geral, apenas
pensado em seu próprio umbigo, mas o pior, eles sabem da verdade sobre o
funcionamento do sistema de ônibus e como a presença dos rodoviários vem
diminuindo no sistema.
O peronismo, é verdade, há muito deixou de ser aquilo que
fora nos anos de resistência. Burocratizara-se, conciliara-se com o grande
capital, governara para os mercados tantas vezes quanto governara para os
trabalhadores. Mas a resposta a essa decadência não poderia ser o apagamento da
memória. A classe trabalhadora argentina, ao decretar o peronismo como puro
engodo e correr para os braços do liberalismo de extrema direita, não fez uma
autocrítica: fez um autoengano. Não rompeu correntes: trocou de algoz. Aqui no
Brasil, sindicatos e partidos progressistas precisam urgentemente rever suas
ultimas posições de passar pano para o Capital. Em outubro, um congresso de
direita pode acelerar a perda de direitos trabalhistas e a massa operária não
tem capacidade de enfretamento ao aparato opressor do Estado burguês.
O inseticida não cessa de ser veneno porque a barata o odeia.
E o chinelo não cessa de esmagar porque a barata, num acesso de desespero,
decide amá-lo. Pior: o chinelo argentino, ao esmagar, ensina ao chinelo
brasileiro como aprimorar a pontaria.
Mas é na obra de Marx e Engels que encontramos as ferramentas
para compreender, e para resistir. Para Marx, o trabalho não é uma mercadoria
como qualquer outra. É a atividade vital do ser humano, aquilo que o distingue
dos animais, a mediação entre o homem e a natureza. No capitalismo, no entanto,
o trabalho torna-se trabalho estranhado: o produto pertence ao
capitalista, o ato de produzir é vivido como sofrimento, e o trabalhador só se
sente livre em suas funções animais, comer, beber, estar com a familia. A
reforma de Milei não é, portanto, uma mera atualização legislativa: é um
aprofundamento teórico-prático desse estranhamento. Ao fragmentar as férias, o
trabalhador perde não apenas dias de descanso, mas a possibilidade de
interromper, ainda que brevemente, o ciclo infinito da produção. Ao ampliar o
período de experiência, o capital diz: você nunca é definitivo, você
nunca é sujeito, você é eternamente precário.
Engels, em A Situação da Classe Trabalhadora na
Inglaterra, demonstrou como a exploração não é um acidente, mas o motor do
sistema. A miséria não é fruto da incompetência ou da falta de modernização: é
o resultado deliberado de uma relação social em que uma classe vive do trabalho
da outra. A Argentina de 2026 repete a Manchester de 1844 com outros figurinos.
Lá, crianças de oito anos esmagavam carvão por catorze horas diárias. Aqui,
trabalhadores formais tornam-se descartáveis por lei. A tecnologia mudou; a
lógica, não.
A luta de classes, para Marx e Engels, não é uma invenção dos
sindicatos ou dos partidos. É o próprio movimento da história. Toda sociedade
até hoje esteve assentada no antagonismo entre exploradores e explorados. O que
distingue o capitalismo não é a existência da luta, mas sua simplificação: a
sociedade cinde-se cada vez mais em dois grandes campos hostis, burguesia e
proletariado. A reforma argentina é um lance nessa guerra. Um lance violento,
mas não definitivo.
Porque há algo que o capital jamais conseguiu subjugar
inteiramente: a capacidade dos trabalhadores de se reconhecerem como classe.
Marx insiste que a classe trabalhadora não é uma massa amorfa, um mero agregado
de indivíduos famintos. Ela torna-se classe para si quando
adquire consciência de seus interesses comuns e os organiza politicamente. É aí
que a união internacional deixa de ser uma ideia bonita e vira uma necessidade
tática. O Efeito Smirnoff, se compreendido dialeticamente, pode ser revertido:
se o capital coordena seus ataques no tempo e no espaço, o trabalho deve
coordenar suas defesas, e, mais adiante, seus contra-ataques.
"Trabalhadores do mundo, uni-vos!" não é um
bordão. É um diagnóstico. Quando a CGT argentina enfrenta a polícia de Milei,
quando os docentes universitários brasileiros publicam notas de solidariedade,
quando um metalúrgico em Córdoba ouve no rádio que seu direito de greve foi
ceifado, todos eles estão diante da mesma escolha: reconhecer-se como parte de
uma classe mundial ou perecer separadamente. A frase de 1848 ecoa em 2026 com a
urgência de quem sabe que o tempo não espera.
O inseticida e o chinelo são, no fundo, o mesmo capital. A
barata que confunde um com o outro comete um erro trágico, mas compreensível. O
que não é mais admissível é que ela repita o erro depois de ver a companheira
esmagada. O que ocorre em Buenos Aires não é um destino. É uma batalha. E
batalhas podem ser vencidas.
A tarefa, agora, é imensa. As reformas de Milei ainda
precisam passar pela Câmara dos Deputados. Os sindicatos, apesar da repressão,
seguem organizados, em que pese estarem combalidos pela duradoura crise
econômica que vivem os trabalhadores. A memória não está inteiramente perdida:
ela habita os corpos dos 300 feridos, as vozes dos 70 detidos, a recusa dos
docentes universitários que, mesmo sob ameaça, foram às ruas. O
internacionalismo proletário, nesse contexto, não é um adorno retórico: é a
consciência de que o que ocorre em Buenos Aires amanhã pode ocorrer em São
Paulo — ou, mais precisamente, de que o que ocorre em Buenos Aires já é São
Paulo, em outro fuso horário, com outros nomes, mas com a mesma lógica. A união
dos trabalhadores do mundo, hoje, significa recusar que a fábrica argentina
seja inteiramente convertida num imenso regime de experiência laboral sem
vínculo, sem direitos, sem futuro.
A barata ainda pode aprender a distinguir o veneno do
chinelo. Mas, para isso, precisará, antes de tudo, recuperar a capacidade de
nomear seus inimigos, e de lembrar por que, durante tanto tempo, aprendeu a
temê-los. E, acima de tudo, precisará compreender que o chinelo de hoje foi o
inseticida de ontem, e que ambos servem à mesma mão.
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