A gente precisa de uma Reforma Administrativa, sim. Mas que beneficie a população.
A gente precisa de uma Reforma Administrativa, sim. Mas que beneficie a população.
Antonio Rosevaldo Ferreira da Silva
Tal qual Jason, personagem de Sexta-Feira 13, a
proposta de uma Reforma Administrativa sempre volta para atormentar os
servidores públicos e a população que necessita utilizar o Estado. Sempre nasce
da cabeça de um partido composto, em sua maioria, por pessoas que tentam usar o
Estado a seu favor. Usam reiteradamente o discurso da modernização da máquina
pública e de que o Estado está inchado. Quase sempre ouço esse mantra vindo de
membros da classe trabalhadora que defendem o neoliberalismo, inclusive
afirmando que “são conservadores nos costumes e liberais na economia”. Coisa
mais ridícula não há. Comparar costumes com economia é comparar alho não com
bugalhos, mas com um elefante. Pois são esses que defendem a Reforma
Administrativa, representada atualmente pela PEC 38. Eu prefiro resumir quem adora
essa posição com a figura da barata, dizendo ser necessário cheirar inseticida
ou tomar uma chinelada por cima das fuças (barata tem fuças?). Somente assim
para alguém pedir o fim dos serviços públicos porque “estão inchados” e “tem
gente ganhando muito”.
Começo este parágrafo dizendo que sou a favor de
supersalários — mas para todos os servidores públicos, em todas as esferas:
federais, estaduais e municipais. Seria um excelente mecanismo de redução das
desigualdades, pois representaria um baita incremento na economia. Eu iria
comprar minha casa de praia “pé na areia”, geraria empregos de caseiro,
piscineiro, vigilância etc. Chique, hein? Ah, e com certeza eu e meus camaradas
iríamos melhorar nossa oferta de serviços: os auditores fiscais iriam “meter bronca”
nos sonegadores, a galera da saúde iria curar mais gente, e a turma da docência
iria se aprimorar ainda mais, pois em todos os espaços os concursos teriam
disputas reais. Fico imaginando que muitos jovens teriam uma baita opção de
mobilidade social; com certeza, a quantidade dos que optariam pelo mundo do
crime seria ainda mais reduzida. Eu sonho e, por enquanto, o sonho é meu.
Convido você a sonhar junto: vamos combater o crime organizado, vamos melhorar
o serviço público contratando mais e pagando melhor. Um sonho sonhado junto é
realidade. Por enquanto, deixaremos os detentores do poder arrancar nossos
sonhos? Eu não quero deixar de sonhar.
Dizem que o Brasil tem muitos servidores públicos — que baita
mentira! Não passamos de 12 milhões de trabalhadores. As perguntas feitas são
assim:
- O
Brasil tem servidores demais?
- O
que fazem as pessoas que trabalham no serviço público?
- A
maioria dos servidores fica em Brasília?
- Todos
ganham muitos salários?
O Brasil possui 5.568 municípios e, em todos eles — maiores
ou menores —, existem servidores públicos. Segundo a PNAD Contínua de 2021,
existiam 91,18 milhões de pessoas empregadas; entre elas, os servidores
públicos, o que equivale a 12,2% do total de pessoas ocupadas. Para que você
entenda, a Austrália tem 28,9%; o Reino Unido, 23,48%; e até os EUA possuem
13,41%. A média da OCDE situa-se em 23,48% de servidores públicos em relação ao
total de empregados. Quero que você entenda: o Brasil não tem servidores
demais. Sei que você, que defende o fim do serviço público, vai mudar
rapidamente o argumento e afirmar que “ninguém faz PN no Brasil”, e esse número
de 12,2% pode ser, segundo vocês, muito ou pouco — mas isso passa pela questão
do que fazem.
A galera atua em diversas áreas e está mais presente em nosso
dia a dia do que nossa vã filosofia pressupõe. Os bombeiros nos socorrem, os
fiscais combatem os sonegadores. A Constituição Cidadã, ao longo do tempo,
universalizou o acesso a serviços essenciais como saúde, educação, transporte e
assistência social. Servidores precisam estar presentes nesse atendimento — e
com qualidade. Somos 1,75 milhão de professores, 2,65 milhões de profissionais
de saúde, lembrando que 74% da população brasileira não têm plano de saúde.
Existem 530 mil policiais em todas as esferas — e, ainda assim, temos poucos
policiais. Somente essas três áreas ocupam 40% do funcionalismo público
brasileiro. Engana-se quem pensa que a maioria está em Brasília; na verdade,
estão nos municípios, onde ocorre a maior parte desses serviços, e por isso
tiveram de aumentar seus quadros. Atualmente, os servidores federais
representam 9,7% do total; os municípios têm 61,71% e os estados, 28,59%.
Eu preciso que você entenda, seu pobre, pobre, pobre de
marré-de-si, que seu ódio por Lula, pelo PT, neste caso, vai custar caro: vai
faltar escola, vai faltar enfermeira, vai faltar policial para você, mulher,
quando seu marido quiser te encher de porrada. Quando seu filho drogado quiser
“esculachar geral”, é a polícia que chamamos. Precisamos, sim, dialogar com as
forças de segurança, conscientizando que bater na cara de pobre e fazer a
segurança de rico bandido não é papel de policial.
Metade dos servidores brasileiros ganha até 2,5 salários
mínimos. Os grandes salários estão no Judiciário e no Legislativo. Entenda, pô!
E entenda também que, na hora em que a onça beber água, eles não serão
atingidos — nós seremos punidos por sermos honestos. Sim, pois o que querem os
políticos é ter à disposição mais cargos para indicar. Afinal, adoraram a
terceirização: indicam nas cooperativas seus eleitores e os cooptam, batizando,
como as facções, novos eleitores. A cada eleição, precisam renovar o vínculo.
Isso é uma forma de escravidão — vou repetir: é uma forma de escravizar as
pessoas. O concurso emperra esse processo. E, do outro lado, querem fazer o que
quiserem com setores de concursados. Vai ser lindo: uma facção financia
vereadores, deputados, prefeitos e governadores e, em seguida, indica policiais
para atuar no combate ao crime. Risível, não? E indicar um falso médico que vai
nos operar? Ou um professor sem formação? Vamos acabar vestindo burca em sala
de aula. Parem com essa PEC 38!
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