Pequena Burguesia no Brasil: Contradições de Classe e Instabilidade no Capitalismo Periférico
Pequena Burguesia no Brasil: Contradições de Classe e
Instabilidade no Capitalismo Periférico
Comumente, o termo pequeno-burguês é usado de forma vaga na
teoria marxista. As pessoas geralmente se limitam à renda, consumo e
comportamentos culturais. Mas, para o marxismo, tal categoria tem sido tratada
com um significado mais estrito e preciso, diretamente relacionado à posição
que um indivíduo ocupa dentro das relações capitalistas de produção. A pequena
burguesia, se seguirmos a teoria marxista, é composta por aqueles que possuem
meios de produção em pequena escala e, ao mesmo tempo, conduzem seu trabalho
diretamente neles. Ele não depende apenas da venda de sua força de trabalho,
como faz o trabalhador assalariado, e, ao contrário do capitalista, não está
inerentemente situado em uma situação de exploração sistêmica do trabalho dos
outros. Portanto, é uma posição intermediária entre o proletariado e a
burguesia. Poder se afirmar que sem o seu trabalho, ele não tem as condições de
sobrevivência. Por receber uma parte da exploração do trabalho, cedida pelo
grande capitalista, ele passa a se achar como parte da engrenagem dominante, quando
na verdade, ele sofre por não poder tirar férias adequadas, perde o convívio
familiar, pois precisa servir ao Capital, como uma espécie de capataz, talvez
até o seja.
Esse estado
intermediário tem um caráter estruturalmente contraditório característico da
pequena burguesia. Exemplos desse fragmento social incluem pequenos
comerciantes, artesãos, autônomos, pequenos empreendedores, donos de oficinas e
pequenos proprietários rurais. A maioria pode ter um ou dois trabalhadores sob
seu comando, mas sua viabilidade financeira contínua, por sua vez, depende de
seu próprio trabalho, energia diária e volatilidade do mercado, o pequeno
burguês não pode parar. E acima de tudo, ele capitaneia a exploração dos porcos
trabalhadores, tanto que são campeões de reclamações trabalhistas. No Brasil, a
exploração se intensifica nas pequenas empresas.
Marx e Engels observam que a pequena burguesia tem sido uma
classe inerentemente instável no passado. O capitalismo, caracterizado em seu
desenvolvimento pela acumulação e centralização de capital, tende a minar sua
base material. Uma vasta maioria de pequenos empreendedores é transformada em
trabalhadores assalariados, ao fechar por falência, seus estabelecimentos, e um
segmento menor chega à burguesia propriamente dita, tornando a passagem pelo funil
da mobilidade social, uma quase exceção. Assim, no marxismo clássico, a pequena
burguesia é uma classe em processo de dissolução e não há mais um projeto
histórico como tal. Essa posição social ambígua também se reflete na esfera
política e ideológica. O pequeno burguês geralmente teme a proletarização; isto
é, a perda de seus meios de produção e autonomia relativa. Por conta desse
medo, ele oprime os que lhes estão abaixo na pirâmide social, movidos por um
pavor de voltar a rotina de apresentar currículo, em busca de trabalho formal.
Morre de medo de voltar a ser pobre, ser empregado e ser oprimido, daí ele
oprime, tanto que abraça as mais loucas propostas politicas e ideológicas.
Mas, ao mesmo tempo, sofrem diretamente com o grande capital,
monopólios e competição desigual. É por isso que tantas pessoas têm uma
política tão volátil: podem ter posturas ao mesmo tempo contrárias à reforma,
moralizações de mercado e ao direito de escolha dos indivíduos; podem
inclinar-se para uma orientação conservadora em certas questões; e, em algumas
formas, podem apoiar empreendimentos progressistas na medida em que não
desafiem diretamente a propriedade privada de maneira consequente.
Marx destaca esse ponto de forma mais contundente em O 18 de
Brumário de Luís Bonaparte, no qual demonstra que a pequena burguesia pode
desempenhar uma função útil em momentos de sofrimento, mas é o pequeno burguês
que age hesitante: eles apenas respondem a mudanças em suas próprias
circunstâncias em vez de se esforçarem para desenvolver uma nova ordem
completamente. Argumenta-se que, no marxismo, o que compõe a pequena burguesia
não são seus hábitos de consumo ou suas crenças pessoais, mas a relação que têm
com os meios de produção. É uma categoria social caracterizada pela
instabilidade econômica, ambiguidade política e os problemas envolvidos em se
tornar um sujeito histórico autossuficiente dentro do capitalismo.
No Brasil, o conceito marxista de pequena burguesia ajuda a
explicar os aspectos essenciais da organização social e política do país,
particularmente em um sistema capitalista marcado pela heterogeneidade
produtiva, informalidade e acentuada concentração de renda e capital.
Tradicionalmente, a pequena burguesia brasileira surgiu de forma desigual e
tardia, acompanhada por processos incompletos de industrialização, rápida
urbanização e desenvolvimento setorial no setor de serviços. Pequenos
empreendedores, artesãos urbanos, operadores de oficinas, prestadores de
serviços, trabalhadores autônomos e pequenos agricultores rurais sempre
ocuparam uma posição útil na economia nacional, mas são subordinados ao grande
capital, ao sistema financeiro e ao Estado. No contexto brasileiro, essa fração
social é particularmente sensível à turbulência econômica estrutural. O ciclo
de crises, inflação, altas taxas de juros e limitações de crédito afeta
diretamente pequenos negócios e trabalhadores autônomos. Isso significa, então,
que a divisão entre a diminuta burguesia e o proletariado é especialmente
tênue. Muitos microempreendedores e autônomos vivem em condições inseguras, com
longas jornadas e renda imprevisível. Mesmo que ideologicamente se considerem
"empreendedores", na prática são mais ou menos trabalhadores
assalariados servindo ao Capital. A recente expansão do microempreendedor
individual (MEI) e do trabalho autônomo ilustra perfeitamente esse paradoxo.
Mas, embora esses trabalhadores sejam tecnicamente empreendedores sob a lei,
muitos dependem de uma única fonte de renda para sobreviver, ou podem não
conseguir definir preços, não ter capital ou estar expostos a flutuações de
mercado, assim como as plataformas digitais.
Do ponto de vista marxista, isso é uma proletarização
encenada, um processo de proletarização disfarçada, que amplia a base social da
pequena burguesia precária. Politicamente, a pequena burguesia brasileira
encarna muito claramente o comportamento oscilante da pequena burguesia, como
Marx descreveu. Esse grupo social pode aceitar obras de desenvolvimento e
crédito, segurança estatal e políticas econômicas, e defender seus interesses,
mas ao mesmo tempo tende a rejeitar impostos, regulamentações e políticas de
redistribuição. O medo de um status econômico debilitado e de sucumbir às
condições do proletariado é a base para um discurso moralizante, antipolítico e
até autoritário. Essa ambivalência explica em grande parte por que partes da
pequena burguesia estiveram no centro das recentes crises políticas no Brasil.
Grande parte dessa seção seguiu narrativas de combate à corrupção, proteção do
"mérito individual" e crítica ao Estado quando essas narrativas
levaram a políticas econômicas que aprofundaram a concentração de renda e
minaram ainda mais os pequenos produtores e comerciantes. A pequena burguesia
nas áreas rurais também faz muito por conta própria. Pequenos proprietários de
fazendas, que geralmente estão endividados, para atravessadores e
intermediários que se apropriam do excedente e dependem de cadeias de produção
dominadas por grandes empresas, dificilmente conseguem reproduzir seu processo
de acumulação. A pressão do agronegócio, dos preços globais de commodities e do
crédito local contribui para a tendência de perda de autonomia e acesso
subordinado ao capital. Não é a toa que se vê constantemente, pequenos
produtores rurais com medo da Reforma Agrária.
Em síntese, a análise da pequena burguesia a partir do
marxismo, articulada à realidade brasileira, revela uma fração social marcada
por profundas contradições estruturais e políticas. Situada entre o capital e o
trabalho, a pequena burguesia no Brasil vivencia de forma intensa a
instabilidade econômica, a pressão do grande capital e o risco permanente de
proletarização, ao mesmo tempo em que busca preservar sua autonomia material e
simbólica. Essa posição intermediária explica tanto sua relevância social quanto
sua oscilação ideológica, frequentemente capturada por discursos
individualistas, moralizantes ou antipolíticos. Longe de constituir um sujeito
histórico autônomo, a pequena burguesia brasileira expressa, de maneira aguda,
os limites do capitalismo periférico e desigual, no qual a promessa de ascensão
social convive com a reprodução ampliada da precariedade e da concentração de
riqueza.
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