Crônicas Feirenses 2: academia, espaço de Narciso, impressões de um iniciante

 

 

Crônicas Feirenses 2: academia, espaço de Narciso, impressões de um iniciante

Desde que eu desfilava meu futebol pelos campos da Estação Nova, fui contra atividade física — que o digam todos os meus treinadores, todos os meus professores de Educação Física. E aqui vale lembrar: Manteiga, Fialho, João Arthur e Torres, que estiveram comigo desde a adolescência. Treinadores, vale aqui Nelson, do Treze, Babau, Zé Pequeno, Rogério Santana, todos me cobrando mais atividade física. Eu sempre fugindo. Com Nelson já era um dilema: ele me acordava e eu botava a cara na janela e, com voz rouca, dizia que estava com febre. Com Babau, em toda parte física me batia uma vontade de cagar, e eu ia para o mato e esperava terminar toda atividade. Com João Arthur, para fugir da atividade, me matriculei na aula de vôlei — eu, baixinho, imagina aí? Eu me escondia no banheiro e, quando começava o treino, me picava na bike. Meu lance era futebol. Todos me puniram, e não vou contar agora. O foco aqui é a ida para a academia aos 67 anos de idade.

Diagnosticado com esteatose hepática grau 2 e com obesidade, a cardiologista recomendou o uso de caneta emagrecedora, a Wegovy, e atividade física com apoio nutricional. E assim lá fui eu, humilhado pelo organismo, com artrose avançada, para a academia SelFit, que fica perto de minha casa. Mas aí veio o primeiro susto: a doutora Rita meteu um relatório dizendo que o profissional que me atendesse poderia me matar de tanto exercício. Lembrei a ela que eu tinha um stent na circunflexa; ela, sorridente — pois me acompanha há onze anos —, disse: “Você está ótimo e pode ir melhorar sua vida.”

A nutricionista recomendada me atendeu simpática. Não gosto de profissionais de saúde simpáticas; eu sou um cara chato, pergunto, duvido, sou um terror. Tudo bem, respeito demais os profissionais que escolho, e a doutora tinha um currículo top das galáxias. Mas também não teve piedade: elogiou a Rita por escolher dosagens progressivas, começando pela menor, de 0,25 mg, até 1,0 mg em três meses. Disse que seria para que eu me acostumasse com o medicamento no corpo, evitando efeitos colaterais.

Assim fui para meu primeiro dia na academia, e aqui começa a saga. Velho, obeso, disputando aparelhos com a garotada marombada. O instrutor Tiago me atendeu bem, me orientou e apresentou um plano de treinos sem peso. Cara, eu adorei: bicicleta. Não fiz esteira por conta da artrose, e assim comecei minha vida: aprender o nome dos aparelhos — cadeira abdutora, adutora, extensora (qual a diferença entre elas?), crucifixo inverso, crucifixo no voador, máquina pronada, halteres frontais, leg panturrilha, remada, supino máquina, tríceps máquina, supino inclinado com halteres e mais um bocado.

Passado um mês, Thiago foi para a unidade nova na Maria Quitéria; eu fiquei por aqui. No quarto dia, fui fazer mobilidade de tornozelo e estava no segundo dia da dose de Wegovy, e bateu um refluxo que assustou a instrutora Deise. Mas, se ela estiver lendo, nunca mais aconteceu — mas também não fiz mais o tal exercício. Outro dia, o Glauber, outro instrutor show, queria que eu aumentasse os pesos. Puxei o plano de treino e mostrei que era sem peso. Outra instrutora massa é a Lândia; na verdade, a equipe toda me atende bem. Recomendo mesmo. Opa, acho que vou pedir desconto.

Mas vem aí a parte chata agora, se bem que tiro de letra. Um dia, duas meninas ocuparam a cadeira extensora e não me davam espaço. O diacho é que uma vai todo dia, e sou ranço puro quando olho para ela — mil pensamentos de como matar, mas todos visíveis e risíveis, como jogar um peso na cabeça. Mas eu lembro que não posso pegar peso. Outro dia, na remada, um pivete ficou verificando todas as redes sociais possíveis de um adulto de 20 anos. O desgraçado nem olhava na minha cara. Ali eu aprendi um dos traumas de academia e o porquê de tantos vídeos de briga nesses espaços. Pesquei o nome do infeliz e fiz um fake para perturbar a mente dele. Apertei mesmo. Ele que se lasque.

Outra coisa engraçada: comecei a perder peso e não era mais o velho obeso e aleijado; já era um rato de academia. E hoje mesmo bati meu recorde mundial: três dias seguidos de academia. E aprendi o significado da expressão “na força do ódio”.

Mas, na bike, eu passo o olhar em todo o salão e vejo as marombadas de bunda empinada, tirando onda mesmo; os marombados desfilam seus bíceps e tríceps, humilhando geral. As meninas com janeiros próximos aos meus, marrentas e olhando os novinhos; as novinhas olhando os marombados velhinhos; os barrigudos e as demais numa solidão imensa. Dois meses depois, eu só fiz amizade com as instrutoras e os instrutores. Acho que o chato sou eu. Digo isso porque vi muitos ex-alunos e ex-alunas, cumprimentei, abracei e voltei para a atividade. Não dei muita moral para conversas alheias.

Um dia vi Elsimar Pondé numa bike, tirando onda, e não vi mais. Desistiu? Há muita gente que estava no início e não vi mais. Acho que o índice de desistência é grande na terceira idade. Vou em todos os horários possíveis, às vezes fugindo da menina chata e mais para conter meu instinto assassino — instinto que já controlei com o menino através do fake.

Tudo poderia ser melhor, assim eu achava, se meu sobrinho e afilhado querido, Tiago Damasceno, um rato de academia, viesse me dar uma força. Mas o miserável só quer treinar às 21h, e no sábado ele some na bruma dos ventos e vai sempre em horário diferente. Dois meses e nenhum dia comigo. Agora ele que siga meu caminho. Eu já sei regular a máquina de leg panturrilha, já sei identificar os aparelhos. Ontem mesmo eu descobri que desenvolvimento em máquina pronada não é o inverso de máquina pronada. Aprendi a deixar a cadeira extensora confortável para meus membros inferiores, aprendi a regular o assento da máquina de crucifixo e outras coisas a mais, sozinho.

Mas assim é a minha vida: aprendi a dirigir carro sozinho, passei em concursos estudando sozinho, sem apostila, sem cursos on-line. Por que não vou aprender a praticar meu plano de treino? Os próximos dias dirão.

 

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