A Ilusão da Bomba: Por que o preço do combustível sobe como foguete, mas só aceita descer de escada a passo de tartaruga?

A Ilusão da Bomba: Por que o preço do combustível sobe como foguete, mas só aceita descer de escada a passo de tartaruga? Antonio Rosevaldo Ferreira da Silva Professor de Economia da UEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana Preço do etanol em queda, preço do barril de petróleo brent em queda, câmbio estável, por que os preços dos combustíveis derivados de petróleo não caem? O Petróleo Brent é, basicamente, nada mais é que a referência mundial para o preço do petróleo. Quando você liga o rádio, a TV ou abre um site de notícias e ouve que "o barril de petróleo caiu para US$ 75", quase sempre estão falando do Brent. Originalmente, o Brent é o petróleo extraído de uma região de campos de petróleo no Mar do Norte (entre a Europa e o Reino Unido). O nome "Brent" vem de um campo específico descoberto pela Shell na década de 1970 (e, curiosamente, a empresa batizava seus campos com nomes de aves marinhas; Brent Goose é o ganso-gordo). Hoje, ele engloba a mistura da produção de vários campos daquela região. Tecnicamente o Brent é classificado no mercado como um petróleo leve (light) e doce (sweet). Leve significa que ele é menos denso, o que torna o processo de refino muito mais fácil. Doce porque significa que ele tem baixo teor de enxofre. Petróleos leves e doces são os melhores do mundo para produzir gasolina e diesel de alta qualidade. Quanto menos enxofre e menos densidade, mais barato e eficiente é o processo de refino. Como o mercado financeiro precisa de um padrão para negociar, o Brent virou o principal benchmark (termômetro) global. Cerca de dois terços de todo o petróleo comercializado no mundo usam o preço do Brent como base para fixar seus próprios preços. A própria Petrobras usa o Brent como principal referência para balizar os preços aqui no Brasil, já que o nosso petróleo (embora o do Pré-Sal seja de ótima qualidade) é negociado tendo o mercado internacional como espelho. O principal "rival" do Brent no noticiário é o WTI (West Texas Intermediate). Enquanto o Brent é a referência para a Europa, África, Oriente Médio e grande parte do mundo (cotado na Bolsa de Londres), o WTI é o petróleo extraído no Texas e serve de referência para o mercado interno dos Estados Unidos (cotado na Bolsa de Nova York). Você aí deve estar se perguntando o que tem o fiofó com as calças se a cueca está no meio? Sua parada aqui para ler este texto é entender a ilusão da bomba no tal sobe e desce dos preços sem ninguém explicar. Estou tentando, por favor, segure um pouco a onda. Vamos falar um pouco sobre o etanol, aquela velha mania de manter um percentual sobre o preço da gasolina, já notou isto? O preço do etanol varia por motivos completamente diferentes dos do petróleo. Enquanto o Brent responde a guerras e geopolítica, o etanol responde à agricultura, ao clima e, principalmente, ao comportamento dos motoristas. As grandes engrenagens que fazem o preço do álcool subir e descer funcionam da seguinte forma: O etanol é um produto agrícola (vindo da cana-de-açúcar ou, cada vez mais, do milho). Isso significa que ele depende do calendário da terra. A produção brasileira de etanol produzido do milho vem aumentando bastante. A safra de cana ocorre de abril a novembro, nesse período, as usinas estão moendo cana a todo vapor. Há muito etanol entrando no mercado, o que faz os preços caírem. Entre dezembro e março ocorre a entressafra, chove mais, a colheita para e as usinas interrompem a moagem. O mercado passa a viver dos estoques guardados. Se o estoque fica baixo, o preço sobe na hora. As usinas brasileiras são "flex". Elas podem usar a mesma cana para produzir açúcar ou etanol. A decisão é puramente financeira: se o preço do açúcar estiver alto no mercado internacional (em Nova York), as usinas desviam o máximo de cana possível para fazer açúcar e exportar. Consequentemente, sobra menos cana para fazer etanol, a oferta do combustível cai no Brasil e o preço na bomba sobe. E que ninguém espere patriotismo, os caras mudam o processo produtivo na hora para aumentar os lucros. Em vez de destilador (etanol) o caldo da cana vai para o cristalizador e tome açúcar no povo. Como a frota brasileira em sua maioria é flex, subindo a gasolina, os consumidores chegam na bomba e mandam ver no etanol, simples né? Nananina não. Pois se a Petrobras aumenta a gasolina, os motoristas correm para o etanol. Com todo mundo migrando para o etanol, a demanda explode. Aí pela lei da oferta e da procura, os usineiros e postos aproveitam para subir o preço do etanol até ele encostar novamente no limite dos 70% da gasolina. Só que a conta não bate, pois este percentual foi na época que a gasolina era pura, hoje ela leva etanol em cerca de 30% e vem aí o novo teto de 32%, aquela conta de 70% não serve mais nem para artigo acadêmico, epaaa, deixa eu ficar quieto. O que vale aqui é o seguinte, o etanol muitas vezes sobe só porque a gasolina subiu, mesmo que a safra de cana tenha sido excelente. Ele pega "carona" na demanda. E aquele usineiro nada patriota, fica sorrindo e curtindo a visa adoidado. Se o clima castigar o Centro-Sul do país (com secas severas ou excesso de chuvas fora de hora que atrapalhem a concentração de açúcar na cana), a produtividade cai. Menos combustível produzido por hectare é igual a preços mais altos para o consumidor. E o pobre do motorista fica sem saber o que fazer, abastecer ou não abastecer? Eis o dilema diante da bomba. Essa é a clássica "frustração do posto de combustíveis": você vê as notícias de que as matérias-primas e os indicadores econômicos caíram, mas o preço na bomba parece colado com superbonder. Embora o etanol anidro (que vai misturado na gasolina) e o petróleo Brent tenham apresentado quedas recentes, o preço final dos derivados de petróleo não cai de forma imediata nem na mesma proporção por conta de uma série de engrenagens econômicas e logísticas. As refinarias e distribuidoras não compram o petróleo que vão refinar hoje na cotação do dia. O combustível que você está colocando no tanque agora foi produzido a partir de petróleo comprado semanas ou meses atrás, quando os preços podiam estar mais altos (como no pico gerado por tensões geopolíticas no início do ano). Existe uma defasagem natural para que o "óleo cru mais barato" passe pelo refino, transporte e distribuição até chegar ao posto. Desde 2023, a Petrobras abandonou a Paridade de Importação estrita (PPI), que repassava as oscilações do Brent quase que diariamente. A política atual prioriza a estabilidade: Quando o Brent disparou recentemente (chegando a passar dos US$ 100 devido aos conflitos globais), a Petrobras segurou os preços e absorveu o prejuízo para não repassar a inflação ao consumidor. Por outro lado, agora que o Brent está recuando, a estatal usa essa margem para se recuperar do período em que segurou os valores. Ou seja, ela demora mais para reduzir porque também demorou para aumentar. Recentemente, para conter as grandes altas dos combustíveis, o governo utilizou pacotes de subsídios fiscais e subvenções econômicas. Com a queda do preço do petróleo lá fora, o governo começou a retirar esses subsídios e benefícios temporários para aliviar o caixa público. Na prática, a Petrobras até chega a anunciar reduções na refinaria (como os cortes recentes na gasolina e no diesel), mas o fim do subsídio governamental acaba anulando essa queda para o consumidor final. O preço internacional do petróleo é apenas uma fatia do que você paga. A composição do preço final envolve custos de transporte, frete e armazenamento, margem de lucro das distribuidoras e dos donos de postos somados aos impostos estaduais (ICMS fixo por litro) e federais. Mesmo se a matéria-prima cair 15%, os custos operacionais (aluguel do posto, salários, energia) continuam subindo com a inflação interna. Resumo da ópera, quando o preço do petróleo cai no mercado internacional, a redução precisa passar pelo "filtro" dos estoques antigos, pela compensação da Petrobras que segurou as altas passadas, e pela retirada de subsídios do governo. A queda só chega de verdade à bomba se o Brent e o câmbio se mantiverem baixos e estáveis por um período prolongado de várias semanas. No fim das contas, abastecer no Brasil é aceitar que a lógica do mercado simplesmente tirou férias permanentes. É um mistério da natureza: o petróleo desaba lá fora, a colheita de cana bate recorde por aqui, o dólar dá uma trégua e, mesmo assim, o preço no posto da esquina continua firme e intocável, parecendo até piada de mau gosto. Para quem dirige, só resta rir de nervoso ao ver que o preço para encher o tanque sempre sobe na velocidade de um foguete, mas, na hora de descer, parece uma tartaruga manca e com cãibra.

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