Queda na Alimentação vs. Alta na Energia: O Que Mostra o IPCA de Julho
QUEDA NA ALIMENTAÇÃO VS. ALTA NA ENERGIA: O QUE MOSTRA O IPCA DE JULHO
O IPCA acumula 4,44% em 12 meses, dentro do teto da meta, porém acima das projeções do mercado, justamente aquelas previsões pessimistas que são colocadas no início dos últimos anos.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do país, subiu 0,07% em julho. O resultado representa a quarta desaceleração mensal consecutiva, após 0,88% em março, 0,67% em abril, 0,58% em maio e 0,16% em junho, e temos o menor para um mês de julho em quatro anos. No acumulado de 2026, a inflação está em 3,44%. Já nos 12 meses encerrados em julho, a alta é de 4,44%, abaixo dos 4,64% registrados até junho e dentro do intervalo de tolerância da meta do Banco Central (1,50% a 4,50%).
Comprar comida ficou mais barato, e o alívio veio principalmente da mesa do consumidor: o grupo Alimentação e bebidas registraram queda de 0,67% em julho, a mais intensa desde julho de 2024, puxada pela redução de 1,14% nos alimentos consumidos em casa. Os destaques de baixa foram o tomate (-29,09%), a batata-inglesa (-19,59%), a cenoura (-14,41%) e o café moído (-2,45%). O tomate, sozinho, respondeu pelo maior impacto negativo no índice, com -0,10 ponto percentual. Alguém notou que o açúcar e o arroz estão mais baratos? Brasileiro precisa parar de reclamar apenas do que sobe e olhar para o que fica mais barato. Aquela velha frase de que “tudo está mais caro”, não se sustenta no mundo real.
Por outro lado, quem comeu fora de casa sentiu no bolso: a alimentação fora do domicílio acelerou de 0,15% em junho para 0,55% em julho, com os lanches subindo 0,76% e as refeições, 0,42%, reflexo da pressão da demanda no período de férias e do aumento dos custos operacionais. Poderia também afirmar que os donos de restaurantes começam a repassar aumentos de insumos que ficaram represados no final de 2025.
A vida poderia ser melhor, pois, a despeito do alívio nos alimentos, a inflação de julho foi puxada para cima pelo grupo Habitação, que acelerou de 0,63% em junho para 0,99% em julho, com destaque para a energia elétrica residencial, que subiu 3,09% e teve o maior impacto individual no mês (0,13 ponto percentual). O resultado reflete reajustes tarifários em São Paulo (8,85%), Porto Alegre (14,89%) e Curitiba (19,55%), além da manutenção da bandeira tarifária amarela, que acrescenta R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos. As passagens aéreas também pressionaram o índice, com alta de 11,67% em julho, contribuindo com 0,09 ponto percentual. O grupo Saúde e cuidados pessoais subiu 0,40%, influenciado por produtos de higiene pessoal (0,64%) e pelo reajuste dos planos de saúde (0,42%).
Do lado positivo, os combustíveis tiveram queda generalizada: etanol (-2,26%), gasolina (-1,37%), diesel (-1,22%) e gás veicular (-0,08%). A gasolina engatou três meses seguidos de baixa, após ter sido pressionada pela alta do petróleo no início do conflito no Oriente Médio.
O IPCA de julho veio um pouco acima do esperado pelo mercado financeiro, que projetava alta de 0,03%, mas a diferença foi pequena. A composição do índice foi considerada benigna pelos analistas, com a surpresa baixista disseminada entre alimentos, bens industriais e núcleos de inflação, e a difusão, proporção de itens com alta de preços, recuando de 60% em junho para 48% em julho.
O ponto de atenção, porém, continua nos serviços intensivos em mão de obra, como refeições, lanches e planos de saúde, que seguem pressionados pelo mercado de trabalho aquecido. O IPCA de serviços acumula alta de 5,86% nos últimos 12 meses, e a inflação de serviços subjacentes em 12 meses ainda está em 5,08%, acima do centro da meta. Quer empregado bom? Pague melhor remuneração, isso acaba gerando uma pressão inflacionaria, em que pese alguns patrões preferem a baixa remuneração e baixa qualidade de atendimento nos serviços. Por isso a população reclama do baixo atendimento ao público.
Recentemente, o Copom reduziu a Selic de 14,50% para 14% ao ano, no quarto corte consecutivo. Em ata divulgada, o colegiado afirmou que há “riscos elevados” para a inflação e que o cenário atual exige “serenidade e cautela”. Parece que vivem torcendo pelo caos, para manter a Selic nas alturas. A avaliação de economistas é que há espaço para pelo menos mais um corte de 0,25 ponto percentual em setembro, o que levaria a Selic a 13,75% ao ano. Embora o cenário seja relativamente favorável, a inflação acumulada em 12 meses ainda está próxima do teto da meta, o que limita a margem para alívio monetário. Pessoalmente, acho que uma taxa de 10% poderia dar um respiro nas contas públicas.
As projeções para o restante do ano, no entanto, pedem cautela. O Boletim Focus mais recente aponta inflação de 5,02% para 2026, acima do teto da meta, e a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda elevou sua estimativa para o IPCA de 4,5% para 5,1%, citando choques de oferta, repasses de preços do atacado e o fenômeno climático El Niño. A formação de um El Niño com alta probabilidade de ser superforte entre outubro e dezembro adiciona viés de alta sobre os alimentos in natura, enquanto o cenário eleitoral e possíveis pressões cambiais também podem gerar impactos sobre os preços.
Para agosto, há uma expectativa de alívio adicional com a distribuição do bônus de Itaipu, de R$ 872,1 milhões, que deve ser aplicado nas contas de luz e pode levar o IPCA a uma deflação de 0,17%. Mas o efeito tende a ser temporário, em setembro, a inflação deve voltar a ganhar força.
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