A jaca e a teoria do consumidor no contexto de Karl Marx: Trabalho, mais-valia e a expropriação do excedente.

 

A jaca e a teoria do consumidor no contexto de Karl Marx: Trabalho, mais-valia e a expropriação do excedente.

A jaca é o fruto da árvore tropical Artocarpus heterophyllus, parte da família Moraceae. A planta tem suas origens no Sul e Sudeste da Ásia, mas foi introduzida em muitas áreas tropicais do mundo e adaptou-se ao ambiente brasileiro. Também conhecida por seu grande tamanho, a fruta é frequentemente considerada uma das maiores produzidas por árvores. Em algumas circunstâncias, pode pesar 20 kg ou mais, com uma casca grossa de cor verde ou amarelada, coberta por pequenas protuberâncias.

 A jaca é composta por várias seções amarelas ou alaranjadas, conhecidas como bagos, internamente. Cada um inclui uma semente relativamente grande, é carnudo, tem um cheiro forte e é doce quando maduro. Carboidratos naturais são abundantes na polpa, enquanto fibras alimentares, vitamina C e potássio, bem como vários componentes antioxidantes, estão presentes; essas propriedades tornam a polpa altamente nutritiva.

Cerca de dois tipos diferentes dessa fruta podem ser conhecidos no Brasil. A "jaca mole" tem uma polpa mais macia, úmida e intensamente doce, enquanto a "jaca dura" tem uma polpa mais firme, menos pegajosa e mais fácil de manusear e comer. Essa distinção é principalmente baseada na textura da polpa e na separação dos segmentos do interior da fruta. A jaca culinária pode ser consumida em todo lugar. Quando madura, a fruta é frequentemente consumida crua ou usada para fazer doces, geleias e sobremesas convencionais. As sementes também são usadas na alimentação, cozidas ou assadas. Além disso, a fruta verde também é utilizada em pratos salgados devido à sua textura fibrosa, tornando-se um substituto vegetal para a carne em algumas receitas.

Mais recentemente, a jaca do tipo dura, passou a ser ofertada em placas, com os bagos selecionados, limpados e sem o popular visgo da jaca. Com essa inovação, o consumo da fruta disparou e, por consequencia, o preço vem atingindo níveis estratofericos, podendo ser encontrados em semáforos por cerca de R$10,00 a placa.

Do ponto de vista de Karl Marx e seu materialismo histórico-dialético, toda a narrativa da jaca é transformada quando considerada através da lente consumista. Mas, se antes celebrávamos a inovação de mercado que "libertou" o consumidor do incômodo pegajoso, agora temos que perguntar: a que custo essa conveniência foi produzida? E, crucialmente: quem realmente lucrou com o aumento de preço?  Para Marx, a resposta não está na utilidade ou satisfação do consumidor, como ele vê, mas no trabalho e nas relações sociais de produção que tornaram a jaca em fatias possível na vida real. Valor de uso e valor de troca. A jaca pegajosa originalmente tinha um valor de uso incrivelmente alto: como alimento. Mas, seu valor de troca (preço) era pequeno. Por quê? Porque, na perspectiva marxista, o valor de uma mercadoria depende de quanto trabalho socialmente necessário é requerido para produzi-la. A jaca vinha da árvore e era vendida mais ou menos como estava. Integrava pouco trabalho humano além do cultivo e colheita. Quando surge o conceito de limpar e vender a jaca em fatias, ocorre uma mudança crucial: novo trabalho humano é adicionado à quantidade da mercadoria. Alguém tem que descascar, sujar de visgo as mãos, puxar os segmentos, separar as sementes, embalá-la, etc.

Esse trabalho adicional não é gratuito, ele é introduzido na nova mercadoria jaca em fatias, enriquecendo seu valor.  É aqui que a análise marxista é perspicaz. Quem faz esse trabalho de limpeza? Normalmente não é o capitalista (um proprietário do mercado, feira ou empresa de processamento), mas trabalhadores assalariados, como regra. Esses trabalhadores vendem sua força de trabalho por salários que garantem sua própria subsistência. Mas o valor sendo feito a partir do trabalho desses empregados produzindo jaca pegajosa em fatias e transformando-a em jaca vale mais do que eles recebem em troca por transformar essa jaca pegajosa em jaca palatável. Essa diferença, esse trabalho não pago, é o que Marx chamaria de mais-valia. Agora vamos ao exemplo concreto: 1. O capitalista que compra: uma jaca pegajosa inteira por R$ 25,00.

2. O capitalista contrata: um trabalhador por um salário equivalente a R$ 11,00 por hora (valor que ele precisa para se reproduzir socialmente).

3. O trabalhador produz: em uma hora, ele limpa 5 jacas, transformando-as em 50 bandejas de polpa pronta. 4. O capitalista vende: R$ 10,00 por cada bandeja = R$ 500,00. Agora, vamos fazer essa matemática marxista: • Custo total para o capitalista: R$ 125,00 (5 jacas x R$25,00) + R$ 11,00 (1 hora de salário) + custos fixos (facas, luvas, energia, aluguel) = aproximadamente R$ 60,00. • Receita total: R$ 500,00. • Lucro (mais-valia): R$ 304,00. De onde vieram esses R$ 304,00?

Eles não derivaram do “risco do negócio”, da “sagacidade de mercado”, para Marx. Eles foram derivados do trabalho não pago ao empregado. O trabalhador gerou, em seu trabalho, um valor maior do que a quantia que ele ganhou trabalhando. O capitalista toma esse excedente, porque ele possui os meios de produção (a empresa, a faca, a câmara fria, o ponto comercial).

Marx oferece ainda outro fenômeno que se encaixa bem na descrição com a história da jaca: alienação. Antes, a jaca tinha, no geral, uma relação direta com o trabalhador que a colhia ou mesmo a dona de casa que a recortava em casa. Há um know-how envolvido em lidar com a pegajosidade, em abrir a fruta sem se sujar muito. Como a limpeza da jaca está sendo realizada por trabalho assalariado, o trabalhador perde o controle da execução do processo, bem como do resultado final do trabalho. Ele não faz escolhas sobre a quantidade de jacas a abrir, não determina o preço, não lucra diretamente com a venda. Ele continua e continua novamente, limpando o visgo que costumava repelir o consumidor, mas a pegajosidade agora é seu problema diário. O fruto de seu trabalho (a bandeja de jaca limpa) agora é transformado em uma mercadoria que pertence ao capitalista, que será vendida no mercado a seu critério.

 E, por fim, quando o consumidor aparece na feira e compra a bandeja de jaca limpa, ele vê apenas o bem sensível, limpo, higiênico, prático e conveniente. Ele não vê as mãos do trabalhador que a preparou, não consegue ver o esforço ou o tempo ou a saúde despendidos para remover a pegajosidade. A relação entre os homens (o trabalhador que produz e o capitalista que extrai lucro deles) parece ser uma associação entre coisas (o dinheiro do consumidor e a mercadoria jaca). Isso é a fetichização do produto: a relação social de produção (exploração, mais-valia) é negada e o produto parece ter um valor mágico e autônomo, apenas o produto da “inovação de mercado” e menos do trabalho humano que o criou.

 A teoria do consumidor, que é bastante neoclássica, assume que o preço aumentou a um nível onde os consumidores se tornaram mais confortáveis com seu produto para usar no processo de produção, e assim o mercado satisfez essas necessidades básicas. Para Marx:  O aumento de preço não é simplesmente “adição de valor”, mas a materialização de mais trabalho excedente não pago.  O consumidor paga pela conveniência pela exploração da força de trabalho, daqueles que tiram a pegajosidade.  O capitalista mercantiliza o excedente porque opera os meios de produção (barracas, ponto de venda e equipamentos de embalagem) privadamente. O fato de a jaca ter evoluído de uma fruta incontrolável para um produto de conveniência, mostra o capitalismo em duas faces: de um lado foi inovação e satisfação do consumidor; do outro, foi a extração de mais-valia, e foi essa alienação do trabalhador, cujo trabalho é a verdadeira fonte do novo valor que o mercado celebra.

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