Sobrevivendo aos prazeres urbanos

Sobrevivendo aos prazeres urbanos Muita gente tem dito que meus textos se baseiam em números e nem todos gostam de matemática, pois daí que comecei a escrever as crônicas feirenses para falar da urbanização, economia feirense, mas de um olhar de andarilho. Então, hoje eu te convido a um passeio, partindo de casa e experimentar alívios, alegrias, satisfações que a gente sente, mas damos pouco valor. Para muitos, o caos do trânsito e o cinza do concreto são as primeiras imagens que surgem à mente ao pensar nas Feira de Santana. No entanto, por trás da pressa cotidiana, esconde-se um turbilhão de estímulos e satisfações. Especialistas e entusiastas do urbanismo chamam esse fenômeno de "prazeres urbanos": um conjunto de experiências sensoriais, culturais e sociais que só ganham vida graças à densidade e à diversidade da cidade. Ao contrário do bem-estar proporcionado pelo isolamento na natureza, o prazer urbano se alimenta do coletivo, da conveniência e do movimento. Ele se manifesta na capacidade de acessar o mundo em poucos quarteirões e transforma o ato de habitar um espaço público em uma forma de arte. Quem nunca tomou um susto ao tirar o carro da garagem e quase colidir com outro veículo? As vezes até colide, mas lembre aí, que sua satisfação ao ver pista livre e poder manobrar à vontade, é ou não é um alívio? Ao pegar as vias públicas, não é incomum encontrar congestionamento, principalmente nas avenidas Maria Quitéria e João Durval, após minutos se livrando de carros que tentam ultrapassar e passar por vocês, alguns até tentam entrar em seu carro por dentro, ainda tem de ficar monitorando os motociclistas que passam querendo te infartar. Mas, eis que de repente, pista livre a frente. Fala a verdade, aqui você experimenta uma sensação maravilhosa, pé no acelerador. Aí começa a saga dos semáforos de três tempos a ameaçar sua sanidade, mas qual não é a alegria de passar por três sem nenhum ficar vermelho? Bola pra frente que agora tem de lutar por uma vaga para estacionar. Chegar ao centro da cidade e procurar uma vaga para estacionar, se torna tarefa inglória, mas eis que de repente, surge uma vaga, você treme, pensa que é vaga de taxi, olha para ver se tem placa de PCD, que a prefeitura insiste em chamar de Deficiente Físico, talvez seja de idoso, parece que Feira não tem idosa. Mas, tudo certo na Bahia, aquela vaga existe e é real, você estaciona todo cabreiro e sai com um sorriso vitorioso, partindo para encarar uma compra e uma fila imensa. Comprar no centro de Feira de Santana é para os fortes, vendedores em sua maioria bem intencionados, mas bastante mal treinados, alguns poucos são maus mesmo. Aí você é bem atendido, e se dirige ao caixa com uma fila imensa, chega vai puxando o freio, imaginando como seus joelhos irão doer. Eis que ao chegar ao fim da fila, um anjo surge e aponta para você e diz, a partir do senhor podem vir para uma nova fila. Oh glória. No coração dos prazeres urbanos está um conceito que remonta à Paris do século XIX: a figura do flâneur, o indivíduo que caminha sem rumo pelas ruas, movido apenas pela curiosidade de observar. Nasce daí o hábito do "people watching" (observar pessoas), em que sentar-se na mesa externa de um bar ou em um banco de parque para ver o fluxo humano se torna um entretenimento por si só. Eu sou assim, sento e observo pessoas e mercadorias circulando. Há um conforto paradoxal no anonimato das multidões, onde é possível estar sozinho, mas profundamente conectado à energia do resto do mundo. Os chamados "terceiros lugares", espaços públicos ou semipúblicos que não são nem a casa, nem o trabalho, funcionam como as salas de estar das grandes cidades. São praças, parques e calçadões onde a vida social acontece de forma orgânica. Em última análise, os prazeres urbanos são um lembrete de que a cidade não foi feita apenas para a produção e o deslocamento, mas para o encontro. Encontrar beleza na efervescência e transformar a rotina em um menu de possibilidades é, talvez, o maior segredo para se viver bem nos grandes centros.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O envelhecer em Feira de Santana e o impacto social e econômico.

O Chinelo e o Inseticida: a tragédia argentina e o preço de renegar a própria história

Crônicas Feirenses 2: academia, espaço de Narciso, impressões de um iniciante